O Legado de Milton Santos na Geografia Moderna
José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – O geógrafo Jaime Tadeu Oliva, ex-aluno e colaborador de Milton Santos, atualmente leciona e realiza pesquisas no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP). Ele coordena o Arquivo Milton Santos, onde a memória e as ideias do mestre são preservadas. Nesta entrevista, Oliva proporciona uma visão abrangente sobre a trajetória intelectual de Milton Santos, suas principais contribuições para a geografia e sua crítica incisiva ao cenário acadêmico.
Agência FAPESP – Qual é a sua impressão mais forte acerca da trajetória intelectual de Milton Santos?
Jaime Tadeu Oliva – Desde seus primeiros passos como professor de geografia no ensino secundário, Milton Santos se destacou por ter um projeto intelectual claro e muito bem definido, algo raro entre os educadores. Apesar das dificuldades que enfrentou ao longo da vida, ele manteve esse foco, o que, em retrospectiva, permite perceber que os princípios estabelecidos em sua juventude se expandiram e se solidificaram ao longo de sua carreira.
Agência FAPESP – Poderia descrever, em linhas gerais, esse projeto?
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Oliva – Acredito que o projeto intelectual de Milton Santos se estruturou em três linhas fundamentais. A primeira foi uma busca incessante por definir a geografia. Ele não se conformava com a falta de consenso sobre o que a geografia deveria ser. Desde a década de 1950, questionou as bases teóricas da disciplina em diversos escritos. Sua crítica não se limitava à geografia; abordava como as ciências sociais deveriam ser praticadas. Ele se opôs à dominação de metodologias das ciências naturais no campo das ciências sociais. Para ele, a geografia não deveria ser apenas uma descriçã de espaços, mas uma análise de como esses espaços influenciam e são influenciados pela dinâmica social. Quando um ser humano constrói uma estrada, por exemplo, isso vai muito além de uma simples obra, pois reflete intenções de conectar e transformar relações sociais. O espaço, portanto, é essencial e não pode ser visto apenas como um cenário fixo.
A Geografia na Dimensão Internacional
Agência FAPESP – Esse movimento de renovação tinha caráter internacional, não?
Oliva – Sem dúvida, esse movimento era internacional. Muitas discussões já estavam em andamento na Europa. Durante seu exílio, Milton interagiu intensamente com a geografia francesa e norte-americana, mas sua contribuição foi mais do que apenas uma adesão a um movimento já existente; ele foi um dos pioneiros desse debate. Ele mantinha uma postura crítica em relação ao próprio conhecimento, constantemente desafiando suas ideias. Uma de suas frases marcantes era: ‘O verdadeiro intelectual é o primeiro a trair suas próprias ideias’. Ele mantinha uma postura autônoma em relação a suas formulações, evidenciada em sua obra mais relevante, *A natureza do espaço* (1996), que sintetiza seu pensamento sobre a geografia e sua relação com o mundo, incorporando inovações até o final de sua trajetória.
Agência FAPESP – Como você resumiria a primeira linha de força em sua trajetória intelectual?
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Fonte: ocuiaba.com.br
Oliva – Ele foi decisivo em transformar a geografia em uma ciência social. Milton afirmava que ‘a geografia não estuda o espaço, mas a sociedade, a partir da perspectiva do espaço’, enfatizando a necessidade de abordar a totalidade da sociedade. Essa abordagem teve repercussão em outras disciplinas, que, até então, ignoravam a dimensão espacial.
A Urbanização e suas Implicações
Agência FAPESP – Qual foi a segunda linha de força?
Oliva – A segunda vertente significativa foi o estudo do mundo urbano. Desde cedo, Milton interessou-se por cidades de diferentes contextos, como as africanas, do Oriente Médio e latino-americanas. Durante o exílio, sua vivência em diversos países o levou a reflexões profundas sobre a urbanização. Ele questionava como grandes cidades, como Kinshasa, podiam existir em economias sem uma base industrial robusta. Observou que essas cidades, embora parecessem desprovidas de recursos econômicos, apresentavam um complexo conjunto de atividades econômicas internas. Ele introduziu o conceito de ‘circuito inferior da economia urbana’ e, em seu livro *O espaço dividido* (1978), discutiu as interações entre os circuitos superiores e inferiores da economia urbana.
Agência FAPESP – E a terceira linha de força?
Oliva – A terceira vertente essencial refere-se à centralidade da técnica na análise espacial e social. Milton costumava dizer que ‘os espaços são inteligentes e também depósitos de conhecimento’. Sua contribuição foi integrar a discussão técnica à análise espacial, dialogando, por exemplo, com pensadores da engenharia e da tecnologia. Ele previu que a globalização estaria atrelada ao controle técnico e que esse controle subjugava os países menos desenvolvidos. Sua ideia de meio técnico-científico-informacional ressaltava que o espaço é moldado por sistemas técnicos e fluxos de informação, revelando que, no mundo contemporâneo, a tecnologia muitas vezes nos domina.
A Postura Crítica de um Intelectual
Agência FAPESP – Como era a postura intelectual de Milton Santos?
Oliva – Milton sempre enfatizava a importância de um pensamento crítico na universidade. Ele diferenciava entre dois tipos de professores: os que apenas transmitiam conhecimento e os que realmente pensavam. Sua abordagem crítica o levou a questionar constantemente o funcionamento da universidade, que, segundo ele, muitas vezes transformava docentes em burocratas, sufocando a reflexão e o pensamento crítico.
