Terras raras no Paraná: um olhar sobre o subsolo com valor global
O Paraná apresenta áreas com concentrações significativas de elementos de terras raras, sob análise do Serviço Geológico do Brasil (SGB), entidade vinculada ao Ministério de Minas e Energia. Amostras coletadas no Cinturão do Ribeira, abrangendo municípios como Cerro Azul, Tunas do Paraná, Castro, Carambeí e Tijucas do Sul, revelaram teores superiores a 8 mil partes por milhão (ppm). Na prática, isso corresponde a mais de 8 gramas desses elementos por quilo de material analisado, seguindo a mesma base de medição.
Elementos estratégicos para a tecnologia moderna
Dentre os elementos identificados destacam-se o neodímio e o térbio, integrantes do grupo das terras raras, reconhecidas por suas propriedades magnéticas, elétricas, luminescentes e ópticas. Esses minerais são essenciais em tecnologias variadas, incluindo superímãs, motores para veículos elétricos, turbinas eólicas, drones, smartphones e equipamentos médicos.
Embora esses elementos estejam presentes em diversas regiões da crosta terrestre, sua extração comercial é desafiadora, pois raramente aparecem em quantidades que justifiquem o beneficiamento. “Elas estão entre os recursos mais estratégicos do planeta, devido à transição energética e à corrida tecnológica global”, afirma o engenheiro geólogo Abdel Hach, professor do UniCuritiba.
Estudos em andamento para viabilizar a exploração
Os dados encontrados no Paraná indicam potencial, mas ainda carecem de aprofundamento para confirmar se o estado entrará no mapa global da exploração de terras raras. A simples presença mineralógica não garante economicidade na extração, separação e beneficiamento.
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“Esses valores revelam enriquecimento mineral relevante que justifica estudos mais detalhados. Serão necessárias campanhas de sondagem, avaliações metalúrgicas, estudos ambientais e análises de viabilidade econômica para confirmar a possibilidade de exploração”, explica Hach.
Atividades de sondagem já ocorrem na região
A Agência Nacional de Mineração (ANM) confirmou que duas empresas australianas estão realizando sondagens iniciais no Cinturão do Ribeira. A Union Star Metals, por meio da subsidiária Scanty Mineração, conduz projetos em Cerro Azul e Granito Carambeí (abrangendo Carambeí e Ponta Grossa). Relatórios indicam que perfurações e sondagens de reconhecimento foram realizadas nessas áreas.
Recentemente, a Union Star Metals vendeu 100% das ações da Scanty Mineração para a Harvest Minerals Limited, mantendo seu portfólio focado em argilas de adsorção iônica (IAC), depósitos onde esses elementos ficam retidos na superfície das partículas de argila e podem ser extraídos por processos químicos.
Outra companhia, Core Energy Minerals, atua no projeto Tunas, localizado em Cerro Azul e Tunas do Paraná, com área de 18,32 quilômetros quadrados e também focado em argilas iônicas. A empresa realizou duas fases de perfuração de até 15 metros, além de mapeamento e amostragem superficial.
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Testes com amostras mais profundas indicaram recuperação média de 38% para os óxidos totais de terras raras e 63% para os óxidos magnéticos. A próxima etapa inclui sondagens para verificar se a mineralização persiste em profundidades maiores e se se estende por outras áreas. A Core Energy também desenvolve projeto em Campo Largo, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), ainda em fase inicial de exploração.
Além da extração: o valor da industrialização
Para Abdel Hach, o maior potencial do Paraná está no desenvolvimento da cadeia produtiva de alto valor agregado, que envolve o processamento, refino e industrialização dos minerais, e não apenas a extração.
“O estado pode se tornar um elo estratégico nessa cadeia, com impacto econômico direto na região. A industrialização poderia atrair investimentos, gerar empregos qualificados, aumentar a arrecadação e fortalecer a economia local”, destaca o professor.
Ele ressalta que a infraestrutura logística, a presença de parques industriais, universidades e centros de pesquisa no Paraná são fatores que favorecem o desenvolvimento desse setor, caso os recursos confirmem seu potencial.
