Espetáculo une memória indígena e urgências contemporâneas
De 24 de setembro a 4 de outubro, a CAIXA Cultural Curitiba apresenta o espetáculo “ideias para adiar o fim do mundo“, inspirado na obra de Ailton Krenak. A montagem, com direção de João Bernardo Caldeira e protagonizada pelo ator Yumo Apurinã, propõe uma reflexão profunda sobre ancestralidade, crise climática e os direitos dos povos originários no Brasil.
O espetáculo acompanha a trajetória de um homem indígena que, após ter sido evangelizado na infância, busca reconstruir seus laços com a ancestralidade. Em cena, Yumo interpreta a si mesmo, conduzindo a plateia por uma jornada que entrelaça memórias pessoais e questões coletivas enfrentadas pelos povos indígenas.
Circulação nacional e reconhecimento
Após sessões esgotadas no Rio de Janeiro e em São Paulo, a peça ampliou sua circulação em 2026, com apresentações também em Belém e participação no MIRADA – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, em Santos. O espetáculo foi selecionado para integrar a programação da COP30, em Belém do Pará, durante o Dia da Justiça Climática, em convite da La Clima e da File Foundation.
“Somos mesmo uma humanidade?” Essa é a provocação central que Apurinã levanta durante a apresentação. A interrogação reflete o desafio de reconstruir identidades e resistir às pressões históricas que tentam apagar as culturas indígenas.
Ailton Krenak e a luta pelos direitos indígenas
Líder do povo Krenak, ambientalista e escritor, Ailton Krenak é conhecido por sua atuação marcante na Assembleia Nacional Constituinte de 1987, momento em que protestou contra retrocessos nos direitos indígenas. Sua luta é símbolo da resistência que garantiu na Constituição de 1988 o reconhecimento dos direitos originários dos povos indígenas, rompendo com políticas de apagamento cultural e integração forçada.
O diretor João Bernardo Caldeira destaca que o espetáculo ressalta a violência fundadora do Estado brasileiro, que separa corpos considerados civilizados daqueles destinados à expropriação e ao desaparecimento. A presença de Krenak na peça simboliza a disputa fundamental pela existência dos povos indígenas enquanto identidades próprias.
Leia também: 13 Anos de Curitiba Cult: Os Momentos Mais Marcantes da Cultura Pop
Leia também: Quarteto Alma Apresenta Versões de Hits Pop no Teatro Enio Carvalho
Desafios e estereótipos ainda enfrentados
Yumo Apurinã também compartilha sua experiência pessoal diante dos estereótipos ainda presentes na sociedade. Perguntas como “Você é índio de verdade?” ou “Por que não está na sua aldeia?” ilustram a desconfiança enfrentada por indígenas que vivem nas cidades. O ator acredita que “Ideias para adiar o fim do mundo” ajuda a desconstruir essas barreiras, ao dar protagonismo às histórias indígenas no teatro.
Ele vê em Ailton Krenak um porta-voz que conecta múltiplas histórias, povos e territórios, reforçando a ideia de que a identidade indígena é formada por uma constelação de experiências e memórias. “Não andamos sozinhos”, afirma Yumo, ressaltando a importância da coletividade.
Crise climática e a conexão com a natureza
O espetáculo também aborda a crise climática a partir da relação dos povos originários com os territórios. Para o diretor Caldeira, o teatro pode ajudar a resgatar a sensibilidade e a capacidade de espanto diante do mundo, incentivando novas formas de habitar o planeta.
“Não há floresta sem os povos que nela habitam”, afirma, destacando a necessidade de reconhecer a presença e a importância dos povos indígenas na preservação ambiental.
Informações sobre o espetáculo
As apresentações ocorrem de quinta a sábado, às 20h, e aos domingos, às 19h. Os ingressos estão disponíveis na bilheteria da CAIXA Cultural Curitiba e pela plataforma Bilheteria Digital.
Para mais informações, o público pode acompanhar os perfis oficiais no Instagram: @adiarofim, @yumoapurina e @joaobernardocaldeira.
Leia também: Festival Pé Vermelho promete ser o maior evento country do Paraná
Leia também: Espetáculo Drolmas revisita mitologia de Medusa em Curitiba com temporada gratuita
Sinopse e equipe artística
Num planeta em crise, devastado por violência e colonização, um indígena da Aldeia Mawanaty, na Amazônia, revisita sua história e a de seu povo para questionar se somos realmente uma humanidade. A peça é inspirada nas obras de Ailton Krenak.
A montagem reúne atuação, texto e cenário de Yumo Apurinã, com direção e produção de João Bernardo Caldeira. A voz em off de Ailton Krenak reforça a conexão entre passado e presente.
Sobre os protagonistas
Yumo Apurinã nasceu em Cacoal, Rondônia, e cresceu na Aldeia Mawanaty, do povo Cinta Larga. Iniciou sua carreira teatral no ensino médio e foi indicado ao Prêmio APTR de Ator Jovem Talento em 2022 e 2023. Participou de diversas montagens que circularam pelo país.
João Bernardo Caldeira é doutor em artes cênicas pela ECA-USP, com vasta experiência como autor, diretor e pesquisador. Sua trajetória inclui produções que exploram temáticas contemporâneas e corpos dissidentes.
Ailton Krenak, nascido em Minas Gerais em 1953, é uma referência na defesa dos direitos indígenas e na reflexão sobre a relação entre humanidade e natureza. Membro da Academia Brasileira de Letras, é autor de obras fundamentais para o pensamento ambiental e indígena.
