Uma Rede de Conhecimento para a Biodiversidade Marinha
Há 17 anos, uma rede integrada por cientistas, pescadores, catadores de caranguejo e comunidades costeiras vem construindo um retrato detalhado da biodiversidade marinha brasileira no litoral do Paraná. Com o patrocínio da Petrobras, o Programa de Recuperação da Biodiversidade Marinha (Rebimar) monitora e estuda esse ecossistema, unindo o saber tradicional ao método científico para garantir dados que orientam políticas públicas e práticas sustentáveis.
O Valor do Conhecimento Tradicional e Científico
O trabalho de campo exemplifica essa colaboração. O senhor João, catador experiente, identifica tocas de caranguejo-uçá com base em sinais sutis no manguezal, enquanto a professora Cassiana Metri, da Universidade Estadual do Paraná, registra coordenadas e dados precisos. Juntos, eles criam uma leitura sistemática da espécie, fundamental para a conservação e para a economia local.
A Grande Reserva Mata Atlântica, que se estende do sul de São Paulo ao norte de Santa Catarina, abriga uma diversidade única, mas enfrenta pressões crescentes do desenvolvimento portuário, da pesca e do turismo. O Rebimar nasceu justamente para lidar com essa complexidade, ampliando seu escopo de monitoramento para englobar ecossistemas, cadeias alimentares e impactos ambientais.
Expansão do Monitoramento e a Importância do Longo Prazo
Segundo Lilyane Fontoura, coordenadora geral do programa, o crescimento do Rebimar acompanha o aprofundamento do conhecimento acumulado. Com séries históricas superiores a uma década, é possível identificar tendências reais e distinguir variações naturais de mudanças significativas, algo raro em projetos científicos brasileiros.
Manguezais: Infraestrutura Natural Essencial
A oceanógrafa Sarah Charlier Sarubo destaca os avanços no mapeamento dos manguezais, que totalizam cerca de 50 mil hectares na Grande Reserva, superando estimativas anteriores. Além de berçários da vida marinha, esses ecossistemas filtram contaminantes, estabilizam sedimentos e armazenam carbono com eficiência superior à maioria das florestas terrestres. Eles também protegem a infraestrutura portuária contra erosão e danos ambientais.
Os dados coletados pelo Rebimar revelam que áreas próximas ao Porto de Paranaguá apresentam manguezais com alta produtividade biológica e capacidade de armazenamento de carbono, desafiando percepções simplistas sobre a relação entre desenvolvimento e conservação.
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Fonte: agazetadorio.com.br
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Fonte: decaruaru.com.br
Monitoramento de Tartarugas e Indicadores Ambientais
Na Ilha das Cobras, o trabalho da professora Camila Domit acompanha há mais de 11 anos tartarugas-verdes juvenis, utilizando técnicas que vão desde captura cuidadosa até marcação por microchip e monitoramento por transmissores acústicos. Essa tecnologia permite mapear deslocamentos e áreas prioritárias para alimentação, resultando em um “mapa vivo” da costa.
Entretanto, cerca de 80% das tartarugas monitoradas apresentam resíduos plásticos em seu trato digestório, e metade sofre de fibropapilomatose, doença ligada a estresses ambientais. Esses dados indicam o impacto crescente da poluição marinha e reforçam o papel dessas espécies como sentinelas ambientais.
Contaminação por Microplásticos: Um Desafio Global
A oceanógrafa Fernanda Possato coordena as pesquisas sobre resíduos e poluição marinha, identificando microplásticos em aproximadamente 90% dos peixes comerciais analisados, além de aves, tartarugas e mamíferos marinhos. Embora os efeitos na saúde humana ainda sejam estudados, a presença generalizada desses contaminantes evidencia a capilaridade da poluição e a dificuldade de contenção em escala local.
O Oceano e a Complexidade da Gestão Ambiental
As correntes oceânicas transportam partículas plásticas por grandes distâncias, ultrapassando limites municipais e estaduais e alcançando até unidades de conservação remotas. Essa dinâmica ressalta a necessidade de uma abordagem integrada e colaborativa para a gestão ambiental costeira.
Parceria entre Pescadores e Cientistas para a Conservação
Um exemplo inspirador dessa colaboração é o protocolo desenvolvido para proteger a raia-viola, espécie ameaçada que sofre captura incidental durante a pesca de arrasto. Pescadores acionam a equipe do Rebimar para resgatar, tratar e devolver ao mar mais de cinco mil raias. Essa iniciativa fortalece a relação entre ciência e comunidades tradicionais, demonstrando que conservação e pesca artesanal podem coexistir.
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Fonte: belzontenews.com.br
Saúde Única: Uma Abordagem Integrada
O conceito de Saúde Única, defendido por André Catani da Associação MarBrasil, fundamenta o trabalho do Rebimar ao reconhecer a interdependência entre a saúde humana, animal e ambiental. Essa visão amplia a compreensão dos impactos ambientais, como a disseminação de bactérias resistentes e contaminantes, e orienta estratégias integradas de monitoramento e gestão.
Educação Ambiental e Sustentabilidade a Longo Prazo
O programa também investe na formação das futuras gerações. Em Pontal do Paraná, todas as escolas municipais são certificadas como Escolas Azuis, incorporando o conhecimento oceânico ao currículo escolar. Essa iniciativa promove o reconhecimento do valor do mar como sistema vivo, fundamental para a vida local.
Continuidade e Governança Ambiental
Michele Cardoso, da Petrobras, destaca que o apoio contínuo da empresa é pautado na escuta das demandas científicas e na articulação institucional do Rebimar, que envolve universidades, órgãos públicos e organizações civis. Essa rede fortalece a governança ambiental e garante a manutenção das séries históricas essenciais para identificar processos e tendências no litoral.
O Papel do Rebimar no Futuro do Litoral Paranaense
O litoral do Paraná é um território dinâmico, onde atividades econômicas, comunidades tradicionais e ecossistemas coexistem. O Rebimar não busca conservar esse espaço como intocado, mas garantir que ele continue funcionando ecologicamente e socialmente diante das pressões crescentes.
Com dados consistentes e uma rede colaborativa, o programa oferece suporte para decisões mais embasadas por parte de gestores, pescadores e educadores. Enquanto as tartarugas, manguezais, raias e caranguejos seguem seu ciclo natural, a rede humana que os acompanha permanece atenta, produzindo conhecimento para que o futuro do litoral seja mais sustentável e informado.
