Digitalização dos serviços públicos e desigualdades territoriais
A transformação digital dos serviços públicos é frequentemente apontada como um caminho para melhorar a eficiência da gestão urbana e facilitar o acesso da população a direitos básicos, incluindo vagas na educação infantil. No entanto, a experiência das mulheres moradoras da Vila União, bairro do Tatuquara em Curitiba, mostra que esse avanço tecnológico não se distribui de forma igualitária. Obstáculos como infraestrutura precária de internet, limitação no acesso a dispositivos e redes de apoio fragilizam a utilização dessas plataformas digitais, evidenciando desigualdades sociais e territoriais.
Estudo de caso sobre o Cadastro Online na Vila União
A dissertação defendida este ano no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Paraná (UFPR) pela pesquisadora Carla Alessandra Marques investiga as experiências dessas mulheres com a plataforma Cadastro Online. Esse sistema, mantido pela Prefeitura de Curitiba, é utilizado para o registro de intenção de vagas na Educação Infantil, contemplando crianças de 0 a 3 anos. A pesquisa adota uma abordagem qualitativa, combinando revisão bibliográfica, análise documental e entrevistas semiestruturadas para compreender como o processo de digitalização dos serviços públicos interage com as condições reais de quem vive na periferia.
Desafios do acesso digital e a realidade da Vila União
A pesquisa destaca que, apesar da cidade seguir um modelo de smart city e implementar diversas plataformas digitais para gestão urbana, o acesso à educação infantil por meio do Cadastro Online revela um cenário complexo. Mulheres da Vila União experimentam a plataforma de formas heterogêneas, influenciadas pela infraestrutura disponível, relações sociais e redes de solidariedade locais. A falta de acesso pleno a internet e dispositivos tecnológicos obriga essas mulheres a recorrerem a estratégias improvisadas para garantir o acesso aos serviços, como o uso compartilhado da rede em residências ou apoio de vizinhos e instituições.
Esse agenciamento tecnológico é, em grande parte, coletivo e generificado, envolvendo principalmente mulheres que, além de lidar com as demandas do cuidado infantil, precisam construir novos mecanismos para navegar pelas exigências digitais impostas pela administração pública. A digitalização, portanto, cria barreiras que não existiam anteriormente, exigindo dessas mães e responsáveis um esforço adicional para conseguir garantir um direito fundamental.
Implicações e recomendações para políticas públicas
Os resultados da pesquisa apontam para as contradições entre as promessas de eficiência e inclusão das cidades inteligentes e a prática cotidiana de quem vive na periferia. A digitalização dos serviços públicos, apesar de sua relevância para a modernização da gestão, pode aprofundar desigualdades se não considerar as condições reais de acesso e uso da tecnologia. Para que a transformação digital seja efetiva, é fundamental que políticas públicas incorporem a dimensão social e territorial, garantindo infraestrutura adequada, suporte técnico e canais de mediação que facilitem o uso das plataformas por toda a população.
Além disso, a pesquisa serve como alerta para gestores, técnicos e pesquisadores sobre a necessidade de avaliar o impacto da digitalização na vida das pessoas, sobretudo aquelas em situação de vulnerabilidade. Entender como as tecnologias se inserem no cotidiano das comunidades pode orientar decisões mais inclusivas e eficazes, ampliando o alcance dos direitos e serviços públicos.
Quem deve se atentar a esses resultados?
Os achados são essenciais para pesquisadores que estudam tecnologia, cidades inteligentes, uso de dados e soberania digital, além de técnicos e servidores envolvidos na formulação e execução de políticas públicas de digitalização. Planejadores urbanos, especialmente em Curitiba, podem utilizar essas informações para aprimorar iniciativas que promovam uma cidade mais justa e conectada, sem deixar de lado as necessidades e limitações das periferias.
Em síntese, a digitalização pode ser uma ferramenta poderosa para ampliar o acesso a direitos como a educação infantil, mas seu sucesso depende da atenção às desigualdades existentes e do desenvolvimento de soluções que considerem a realidade dos usuários finais. O caso da Vila União evidencia que a tecnologia, por si só, não resolve as barreiras sociais e territoriais, mas pode ser aliada quando implementada com foco na inclusão e no suporte efetivo.
Por Carlos Eduardo Moura, que explica inovação e transformação digital com clareza, conectando tecnologia a efeitos concretos na vida cotidiana.
