Reciclagem em Curitiba: um setor em transformação tecnológica
Quando pensamos em reciclagem em Curitiba, a imagem que surge geralmente é a do carrinheiro pelas ruas, catando papelão e outros materiais. Essa cena, comum e cotidiana, muitas vezes passa despercebida, a menos que o carrinho cause algum transtorno no trânsito. O que poucos sabem é que, além das ruas, há uma revolução silenciosa acontecendo nos bastidores da reciclagem, impulsionada por avanços tecnológicos que profissionalizam o setor.
Curitiba recicla 23,8% dos seus resíduos sólidos, índice que supera em mais de cinco vezes a média nacional de 4,5%, conforme dados de 2024 do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS). Por trás desse percentual está uma cadeia complexa que envolve coleta, triagem, pesagem, processamento e venda para a indústria, processos que hoje dependem cada vez mais de softwares de gestão, controle financeiro e rastreabilidade, ferramentas antes escassas no mercado.
Uma experiência familiar que impulsiona a inovação
Dinho Machado, CEO do Grupo Sygecom, conhece bem essa realidade. Sua história no setor começou no galpão de reciclagem do pai, em Rio Grande, Rio Grande do Sul, e se consolidou após a mudança da família para Curitiba, onde a reciclagem se tornou uma fonte de sustento. Hoje, a terceira geração da família atua nesse mercado e carrega o desejo antigo de Dinho de modernizar o setor por meio da tecnologia.
Há 25 anos, Machado enfrentava um desafio comum: não existiam sistemas no mercado capazes de registrar adequadamente processos básicos, como a leitura do peso nas balanças, algo essencial para a gestão eficiente. Atualmente, o Grupo Sygecom atende 1.500 clientes distribuídos por todo o país, somando 68 mil CNPJs. Ainda assim, o mercado é amplo e pouco visível, com mais de 67 mil empresas com CNAEs relacionados à reciclagem e cerca de 3 mil cooperativas no Brasil.
Em 2025, essas cooperativas processaram 1,6 milhão de toneladas de resíduos. Os clientes da Sygecom movimentaram 16 milhões de toneladas no mesmo período. “O setor ainda é invisível para a maioria, e mostrar a relevância e o volume de dados é um desafio constante”, ressalta Dinho.
Da anotação manual à gestão digital completa
Luiz Renato Costa, um dos sócios da GPS Resíduos, empresa de reciclagem em Curitiba, exemplifica essa trajetória. Fundada há 15 anos no bairro Uberaba, a empresa começou com um caderninho para anotar o peso do material coletado. Conforme cresceu, passou para planilhas de Excel, enfrentando problemas de controle e divergências entre estoque e pagamentos.
Com a aquisição de uma balança rodoviária e um sistema básico, o controle melhorou, mas ainda estava longe do ideal. A virada veio quando Luiz adotou o SGR Plus, plataforma desenvolvida pela Sygecom. “Foi como trocar um Fusca por uma Ferrari”, compara. Hoje, o sistema acompanha toda a operação, da saída do caminhão à emissão fiscal e conciliação bancária automática, fornecendo dados em tempo real sobre estoque, preços médios e movimentações financeiras.
Além de melhorar a gestão, o sistema reduz erros humanos e facilita o inventário, antes feito manualmente. A adaptação exigiu tempo, mas hoje a GPS Resíduos conta com 15 funcionários e presta serviços essenciais para o mercado local.
A tecnologia como ferramenta para o catador de rua
Enquanto empresas avançam na digitalização, os catadores e carrinheiros – a base da cadeia – ainda enfrentam desafios básicos, como a falta de acesso a smartphones capazes de rodar aplicativos. Para apoiar esse público, o Grupo Sygecom criou o Recicla Fácil, um app gratuito que permite aos pequenos recicladores registrar a coleta e venda diárias, um passo inicial para controle financeiro e profissionalização.
Luiz observa que o uso do aplicativo ainda é restrito a quem já possui algum veículo próprio, refletindo desigualdades de acesso. A proposta da Sygecom é criar uma escada de evolução tecnológica, acompanhando o crescimento do catador desde o registro básico até a gestão completa com emissão de nota fiscal.
Enfrentando desafios com inovação
O furto de materiais valiosos, como o cobre, é um problema antigo no setor. Para minimizar esse risco, o Grupo Sygecom desenvolveu um sistema de reconhecimento facial que identifica quem entrega o material, ajudando a separar profissionais honestos de criminosos.
Outro obstáculo é a dificuldade dos catadores informais em comprovar renda para abrir contas bancárias. A resposta foi a criação de uma fintech própria, que oferece serviços financeiros a esse público, promovendo o que a empresa chama de “cidadania financeira” e inclusão no sistema bancário tradicional.
O futuro da reciclagem em Curitiba e no Brasil
Apesar dos avanços, a reciclagem no Brasil permanece majoritariamente informal. Curitiba, que mantém coleta seletiva desde 1989 e conta com programas como o Câmbio Verde, ainda tem mais de 75% dos materiais recicláveis coletados por catadores autônomos, distribuídos em cerca de 50 associações e cooperativas.
Essa dualidade mostra o potencial e o desafio do setor: de um lado, empresas que investem em sistemas digitais robustos; do outro, uma base que busca infraestrutura mínima para se profissionalizar. A tecnologia começa a criar uma ponte entre esses universos, iluminando um setor fundamental para a sustentabilidade e o título de capital ecológica que Curitiba carrega.
