A derrota do projeto político de Ratinho Júnior no Paraná
Ratinho Júnior (PSD) não conseguiu eleger nenhum dos seus indicados para dar sequência ao projeto político que lidera há oito anos no Paraná. O candidato governista ao governo, Sandro Alex (PSD), e seu vice, Rafael Greca (MDB), além dos concorrentes ao Senado, Alexandre Curi (Republicanos) e Cristina Graeml (PSD), foram derrotados nas eleições estaduais. Quem prevaleceu foi Sergio Moro (PL), eleito governador já no primeiro turno, acompanhado por Deltan Dallagnol (Novo) e Filipe Barros (PL), que conquistaram as duas vagas ao Senado.
Apesar de o governo estadual contar com aprovação de 79% dos eleitores, conforme pesquisa Real Time Big Data, a articulação para a sucessão não se traduziu em votos. O cientista político Mario Sérgio Lepre, professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), destaca que a incapacidade de converter a avaliação positiva em votos foi determinante para o resultado. “É um governo muito bem avaliado e, via de regra, governos bem avaliados têm muitas cartas para fazer a continuidade. Isso não foi usado, o que indica um erro grave”, analisa Lepre.
O impacto da escolha tardia do candidato
Durante o segundo mandato, Ratinho Júnior chegou a se projetar como possível candidato à Presidência da República, enquanto mantinha um grupo de potenciais sucessores dentro do PSD e no secretariado estadual. Entre eles, destacavam-se Rafael Greca, ex-prefeito de Curitiba; Guto Silva, ex-secretário das Cidades; e Alexandre Curi, presidente da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep). A demora para definir o candidato oficial do governo resultou em mudanças inesperadas. Greca migrou para o MDB e lançou pré-candidatura em abril, apenas para depois aceitar o posto de vice na chapa do PSD. Curi deixou o PSD para disputar o governo pelo Republicanos. Ratinho optou por Sandro Alex, seu ex-secretário de Infraestrutura e Logística, provocando rompimento com Guto Silva.
O jornalista e economista João Zisman ressalta que esse atraso afetou a campanha progressivamente. “O timing foi muito demorado. O governador ficou absorvido com a questão nacional e não conseguiu criar uma unidade inicial. Enquanto isso, Moro já atuava como candidato em todo o Paraná. Requião Filho (PDT) capitalizou os votos da esquerda”, aponta Zisman.
Consequências da articulação presidencial e diferenças nas votações
A diferença entre os votos recebidos por Sandro Alex e Alexandre Curi também chama atenção. Sandro obteve 1.583.764 votos para governador, enquanto Curi somou 1.947.135 votos para o Senado. Embora as regras da disputa permitam que cada eleitor vote em dois candidatos ao Senado, a disparidade levanta questionamentos sobre a escolha do nome para a sucessão estadual. Lepre atribui essa diferença à força política individual dos candidatos. “Curi tem votos próprios, enquanto Sandro Alex dependia mais da imagem de Ratinho”, explica.
Outro fator que prejudicou a continuidade foi a articulação de Ratinho Júnior para uma possível candidatura presidencial, que desviou o foco da sucessão no Paraná. O cientista político observa que o PSD, como partido de terceira via, oferecia a Ratinho um cenário competitivo, capaz de atrair eleitores tanto da direita quanto do campo do PT, mas essa oportunidade não foi plenamente aproveitada.
A ascensão do PL e o impacto do bolsonarismo
Enquanto Ratinho Júnior buscava um sucessor, Sergio Moro negociava sua filiação ao PL para disputar o governo do Paraná, movimento que colocou o governador em desvantagem. Para Lepre, a transição foi um “xeque-mate” pois Moro já despontava como adversário forte antes mesmo da escolha do candidato governista. A campanha de Moro também foi impulsionada pela ascensão de Flávio Bolsonaro (PL) no cenário nacional, com quem compartilha parte da base política ligada ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
O PL ampliou sua presença no Legislativo desde o início do governo Bolsonaro e consolidou ganhos nas Eleições 2026: elegeu 121 deputados federais e 19 senadores, ampliando sua bancada no Senado para 28 em 2027. Na Assembleia Legislativa do Paraná, o partido alcançou o mesmo número de cadeiras que o PSD, com 14 representantes. Zisman relaciona esse crescimento à lembrança positiva que a Operação Lava Jato deixou entre parte do eleitorado paranaense, já que Curitiba sediou a força-tarefa entre 2014 e 2021.
O futuro político de Ratinho Júnior após a derrota
Mesmo com o resultado desfavorável nas urnas, especialistas avaliam que a derrota não representa um desgaste definitivo para Ratinho Júnior. Zisman destaca que a rejeição à transferência de votos não implica ingratidão do eleitorado à gestão do governador. “O eleitor jamais será ingrato”, afirma. Ele também considera que Ratinho, aos 45 anos, ainda tem espaço para retornar à política estadual ou até disputar a Presidência da República em futuras eleições.
Lepre acrescenta que uma aproximação mais estreita com a campanha de Flávio Bolsonaro poderia ter ampliado as oportunidades políticas de Ratinho, mas essa articulação teria sido mais viável antes da definição das chapas. “Se tivesse composto chapa com Flávio Bolsonaro no Paraná, poderia estar cotado para ministério ou cenário nacional. Ratinho Júnior é um nome forte para a eleição de 2030, embora tenha saído enfraquecido agora”, conclui o cientista político.
