Empreendedoras em Ação
A moda é uma parte integrante do nosso cotidiano, mas quando se fala em moda circular, são as mulheres negras que se destacam como protagonistas em iniciativas de sustentabilidade e transformação social. Retalhos de tecidos são transformados em negócios, gerando renda, sustentando famílias e realizando sonhos. O g1 conversou com três empreendedoras da Região Metropolitana de Goiânia, que fazem a diferença ao fomentar uma produção responsável.
Essas mulheres trabalham para combater um desafio comum a muitas: ter um guarda-roupa abarrotado de roupas, mas sentir que não possuem nada que realmente desejam vestir. Com o crescimento das plataformas digitais de compra e venda, as promoções se multiplicam, mas também surgem questões que frequentemente passam despercebidas: quem confecciona essas roupas? Quais são os materiais utilizados? E o que acontece com elas após serem descartadas?
A moda circular é uma abordagem que visa prolongar a vida útil de roupas e tecidos, minimizando descartes e os impactos ambientais. Essa prática incentiva a reutilização, o reparo e a reciclagem, garantindo que os recursos sejam reintroduzidos na cadeia produtiva, em vez de serem descartados.
Concepção e Responsabilidade na Moda
Em entrevista ao g1, Ana Fernanda Souza, coordenadora de diversidade do Comitê Racial do Fashion Revolution Brasil, enfatizou que a moda circular deve ser considerada desde a fase de concepção das peças. “Desde o design, já devemos pensar em matérias-primas e fibras que sejam facilmente recicláveis ou passíveis de reparo, para que a roupa não se torne lixo rapidamente. E, se a peça chegar ao fim de sua vida útil, que ela possa ser totalmente reciclada, sem gerar resíduos”, explicou.
Esse pensamento contrasta com o modelo de fast fashion, que prioriza a quantidade e o baixo custo de produção. Quanto mais peças são produzidas rapidamente, maior a pressão sobre os recursos naturais e o aumento da poluição ao longo da cadeia produtiva — desde o uso intensivo de água e energia até a geração de resíduos têxteis.
Atualmente, a indústria da moda é responsável por cerca de 8% a 10% das emissões globais de gases do efeito estufa (GEE) e pelo consumo de bilhões de litros de água anualmente. Um relatório da Global Fashion Agenda, elaborado em parceria com a McKinsey & Company, revelou que em 2018, o setor foi responsável por aproximadamente 2,1 bilhões de toneladas de emissões de GEE.
O Papel das Mulheres Negras no Empreendedorismo
No contexto das pequenas empresas, mulheres negras estão à frente. Segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de Goiás (Sebrae-GO), elas representam 53% das empreendedoras no estado. No entanto, desafios persistem na trajetória dessas mulheres, que buscam expressar suas raízes por meio do empreendedorismo.
O Sebrae é um facilitador para que essas empreendedoras possam crescer. Uma das iniciativas do órgão é o Programa Plural, que visa promover o empreendedorismo entre mulheres, indígenas, negros, quilombolas, a comunidade LGBTQIAPN+ e pessoas com deficiência, como uma forma de transformação social.
Thais Oliveira, gestora do programa, compartilhou dados sobre o perfil da mulher empreendedora em Goiás: 33% dos empreendedores negros são mulheres, com maior nível de escolaridade em comparação aos homens negros, mas ainda ganhando em média 58% menos que homens brancos que possuem pequenos negócios.
Desafios e Superações na Moda
Nirce Pereira dos Santos, uma empreendedora de 54 anos de Aparecida de Goiânia, é um exemplo de superação. Após trabalhar no regime CLT e enfrentar a necessidade de estar próxima dos filhos, decidiu vender roupas, mesmo sem saber costurar. “Comecei a vender no salão da minha irmã, mas a necessidade de fabricar as peças me levou a aprender a costurar”, contou.
O que começou como uma necessidade, transformou-se em uma marca de moda afro chamada Njinga, um tributo à resistência da rainha africana que liderou a luta contra o colonialismo. Nirce destaca que a reutilização de retalhos é parte da identidade da sua marca, pois além de gerar lucro, diminui o desperdício: “Com o reuso, conseguimos fazer turbantes, faixas de cabelo e muitas outras peças, aumentando nosso lucro e reduzindo o lixo gerado”.
Outra empreendedora, Milleide Lopes, de 35 anos, cresceu aprendendo com sua mãe sobre a importância do reaproveitamento. “A moda para mim é um processo de memória e ancestralidade, e estamos aqui usando o que temos para não só produzir, mas também para manter nossa dignidade e fortalecer nossa identidade”, afirmou.
As histórias dessas mulheres refletem a força do empreendedorismo negro no Brasil, onde a moda circular não é apenas uma tendência, mas uma oportunidade de transformação social. Em um mercado dominado por grandes marcas, elas buscam criar um espaço que valorize a cultura e a responsabilidade ambiental, desafiando o status quo e proporcionando um impacto positivo em suas comunidades. Com a evolução das práticas sustentáveis, a moda circular se torna uma ferramenta poderosa nas mãos de quem deseja mudar o mundo.
