Explorando a intersecção entre maternidade e violência no Brasil
A história de Maria Dalva da Costa Correia da Silva retrata um drama que vai muito além da dor pessoal. Ela é mãe de Thiago, um jovem de 19 anos que foi tragicamente assassinado na comunidade do Borel. Em um relato impactante, Maria Dalva compartilha sua experiência de violência obstétrica, vivida logo após o nascimento do filho. ‘Eu não vou sair daqui sem meu filho’, afirmou, demonstrando a luta que muitas mulheres enfrentam, não apenas em suas maternidades, mas em suas vidas cotidianas. Este relato fez parte da aula do curso ‘Maternidades e Violências: fortalecimento do direito à saúde e redes de acolhimento’, promovido pela Rede Transnacional de Pesquisas sobre Maternidades Destituídas, Violadas e Violentadas (Rema/CNPq) em parceria com o Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos (Clam), do Instituto de Medicina Social da UERJ.
O curso, que visa fomentar um debate rico e abrangente sobre as interseções entre maternidade e violências no Brasil, tem sido um espaço de reflexão intenso nos últimos anos. Pesquisas e narrativas têm documentado a multiplicidade de violências que as mulheres vivem durante suas experiências maternas, muitas vezes camufladas sob a aparência de proteção a direitos. O foco está em mulheres cuja maternidade é marginalizada, como aquelas que se encontram em situação de pobreza, negras, indígenas, migrantes, em situação de rua ou moradoras de favelas.
Essas violências não apenas impactam as mães, mas reverberam em famílias e comunidades inteiras, frequentemente levando a um ambiente de culpabilização e moralização, que pode resultar em intervenções prejudiciais para essas mulheres e suas crianças.
Um curso transformador como tecnologia social feminista
Leia também: Concurso TJ SC 2026: Salários Iniciais de até R$ 10,3 mil para Diversas Funções
Fonte: joinews.com.br
Leia também: Trilha Jovem Iguassu: Transformando Vidas e Fortalecendo o Turismo na Região
Fonte: amapainforma.com.br
Com o intuito de promover uma reflexão profunda sobre a violência obstétrica e outras formas de opressão, o curso foi concebido para reunir mulheres de diferentes áreas – pesquisadoras, gestoras e ativistas. A proposta gira em torno de três eixos principais: a separação compulsória de crianças de suas famílias, a violência e racismo obstétricos, e as intervenções estatais que podem culminar em tragédias como a morte ou encarceramento de mães e filhos.
O curso, que é gratuito e online, está estruturado em módulos e também oferece rodas de conversa por meio da plataforma Zoom, garantindo que as discussões sejam acessíveis a um público amplo. A equipe responsável pelo curso tomou cuidado para não reproduzir uma estrutura de ensino tradicional e vertical, mas sim fomentar um aprendizado colaborativo, onde as experiências de vida e trabalho de cada participante são valorizadas.
Diálogos e reflexões coletivas
O cunho interseccional do curso reforça a importância dos direitos reprodutivos, permitindo que as participantes reflitam sobre suas próprias experiências e práticas. As rodas de conversa, compostas por profissionais atuantes nas áreas de saúde e assistência social, proporcionaram um espaço para que as vozes das participantes fossem ouvidas. Uma psicóloga de uma clínica da família no Jacarezinho ressaltou a distinção crucial entre gestar e maternar, enfatizando que a violência obstétrica afeta as mulheres em suas mais diversas fases reprodutivas.
Leia também: Espetáculo Gratuito em Belém Reúne Estudantes da Rede Pública Nesta Quinta-feira (7)
Fonte: parabelem.com.br
Essa perspectiva crítica surgiu em meio a discussões acaloradas sobre como as intervenções coercitivas, como a laqueadura forçada, se tornam ainda mais frequentes entre mulheres negras e vulneráveis. O racismo obstétrico, embora muitas vezes negado, torna-se uma realidade presente e dolorosa para muitas dessas mulheres.
Impactos e alcance do curso
Desde a sua criação, o curso não só alcançou profissionais do Rio de Janeiro, como também conseguiu atrair participantes de outras regiões do Brasil, criando uma plataforma de intercâmbio de ideias e experiências. Ao invés de encontros presenciais, as rodas de conversa online permitiram um diálogo mais amplo, com a presença de alunas do Nordeste, Norte, Sudeste e Sul do país.
Essa troca de saberes e experiências é fundamental para construir uma compreensão mais solidificada das violências enfrentadas por mulheres em situações de vulnerabilidade. O curso é, em essência, uma iniciativa que busca não apenas educar, mas também empoderar mulheres e profissionais que atuam em contextos sociais complexos e desafiadores.
Reflexões sobre o papel do Estado e a luta pela saúde
O papel do Estado nas violências sofridas por essas mães foi um tema recorrente nas rodas de conversa. Profissionais expressaram suas angústias, muitas vezes se sentindo impotentes diante das demandas institucionais que parecem ignorar as realidades que enfrentam. A crítica à medicalização do luto e o reconhecimento de que a dor não se limita a condições normativas, mas é uma experiência singular, foram pontos de destaque nas discussões.
O curso, portanto, surge como uma luz de esperança e um espaço de resistência contra as opressões que muitas mulheres enfrentam diariamente. Com um enfoque na sensibilização e na promoção de direitos, ele busca não apenas tratar das desigualdades que marcam a maternidade no Brasil, mas também incentivar a formação de redes de acolhimento e suporte às mulheres.
Assim, ao transformar pesquisa e ativismo em uma tecnologia social feminista, o curso se torna uma ferramenta de empoderamento e uma plataforma de luta pela dignidade e direitos das mulheres no Brasil.
