Sericicultura no Paraná: impacto das mudanças climáticas e estratégias tecnológicas
O Paraná domina cerca de 85% da produção nacional de seda, mantendo sua posição como maior produtor de casulos do bicho-da-seda na América Latina. Essa liderança, contudo, está ameaçada por desafios ambientais, escassez de mão de obra e a deriva de agrotóxicos que afetam as plantações de amoreira. A sericicultura, atividade desenvolvida majoritariamente por agricultores familiares, movimentou R$ 34,57 milhões em Valor Bruto da Produção (VBP) em 2025, conforme dados do Departamento de Economia Rural (Deral), ligado à Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento do Paraná (Seab).
Redução no número de produtores e as causas do declínio
Embora economicamente relevante, a sericicultura no Paraná sofreu uma queda significativa no número de produtores. De aproximadamente 5 mil na década passada, hoje são cerca de 1,2 mil sericicultores ativos. Oswaldo da Silva Pádua, assessor do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná) responsável pela área, atribui essa retração a fatores ambientais, produtivos e sociais, entre eles a pulverização inadequada de defensivos agrícolas e impactos climáticos que prejudicam as amoreiras e comprometem a produção de casulos. A deriva dos agrotóxicos e operações com aviação agrícola sem o devido cuidado também figuram entre os principais problemas enfrentados.
Calor extremo e seus efeitos sobre a produção
As alterações climáticas representam uma preocupação crescente para os próximos ciclos produtivos. Temperaturas elevadas afetam diretamente as amoreiras e o desenvolvimento do Bombyx mori, o bicho-da-seda, cuja alimentação depende exclusivamente das folhas frescas da amoreira. Qualquer comprometimento na qualidade das folhas pode reduzir a produtividade e a qualidade dos casulos. O fenômeno El Niño, associado a ondas de calor mais intensas, intensifica a necessidade de adaptação das propriedades rurais. Manter a temperatura ideal entre 22°C e 26°C nos barracões de criação é fundamental para evitar estresse térmico das lagartas e preservar a qualidade da matéria-prima.
Iniciativas tecnológicas para garantir a sustentabilidade da sericicultura
Para mitigar os impactos climáticos, o Paraná mobiliza associações de produtores, universidades, pesquisadores, indústrias, instituições financeiras e órgãos públicos. No Noroeste do Estado, dez propriedades foram escolhidas como Unidades de Referência e receberão tecnologias como irrigação em áreas de amoreira, estações de monitoramento climático e sistemas de climatização nos barracões de criação. O projeto será expandido para as regiões Centro-Sul e Norte Pioneiro, com previsão de mais dez unidades nessas áreas. Eduardo Venicio Libanori, técnico do IDR-Paraná, destaca que o controle da temperatura será decisivo para assegurar produtividade e qualidade frente ao aumento do calor.
Sericicultura e a agricultura familiar: geração de renda e sustentabilidade
A produção de seda envolve fortemente a agricultura familiar, podendo gerar receita significativa em pequenas áreas. Uma caixa de criação abriga cerca de 40 mil lagartas, produzindo entre 70 e 80 quilos de casulos, com valor de mercado entre R$ 40 e R$ 42 por quilo. Isso pode resultar em uma receita bruta de até R$ 3,3 mil por caixa, dependendo da produtividade. Além do retorno econômico, essa atividade tem baixo impacto ambiental e pode ser integrada a pequenas propriedades, ajudando na diversificação da renda rural. O papel da extensão rural é estratégico para auxiliar os produtores na melhoria do manejo das amoreiras, controle dos barracões e redução das perdas nos ciclos de produção.
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Ciclo produtivo detalhado e regiões de destaque na produção
O ciclo do bicho-da-seda dura cerca de 28 dias, período em que as lagartas se alimentam exclusivamente da folha da amoreira e passam por diferentes fases de desenvolvimento. Durante a fase final, o consumo de folhas aumenta significativamente, exigindo alimentação constante, inclusive noturna. Após o desenvolvimento, as lagartas formam os casulos em estruturas chamadas bosques ou montadeiras. Cada casulo pode render aproximadamente mil metros de fio contínuo, sendo necessários cerca de cinco quilos de casulos para produzir um quilo de seda bruta.
O Noroeste do Paraná, especialmente Nova Esperança, reconhecida como Capital Nacional da Seda, tem tradição consolidada na sericicultura. Em 2025, Diamante do Sul assumiu a liderança na produção estadual de casulos, revelando a expansão da atividade para outras regiões, como Centro-Sul e Norte Pioneiro, justificando o aumento das ações de assistência técnica e implantação de tecnologias.
Processamento industrial e mercado internacional
A cadeia produtiva do Paraná vai além da produção rural, contando com estrutura industrial para seleção, secagem, processamento e transformação dos casulos em fios de seda destinados ao mercado global. Após a coleta, os casulos são classificados em categorias como Premium Extra, Premium Bom, Premium e Kaiten. O processo de secagem controla a umidade para preservar a qualidade do fio, enquanto painéis de luz identificam anomalias internas. O cozimento dos casulos em temperaturas entre 60°C e 70°C facilita a liberação do fio e assegura uniformidade e resistência da seda.
Além do fio, os subprodutos da seda são aproveitados: a anafaia, composta pelas sobras, é usada em tecidos, cortinas e almofadas; as crisálidas podem ser destinadas à alimentação animal ou consumo humano em mercados específicos.
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Seda paranaense nas passarelas internacionais
O fio produzido no Paraná abastece marcas internacionais de luxo, como Hermès e Chanel, que utilizam a seda em lenços, roupas e coleções de alta-costura. Desde 2006, a Hermès utiliza exclusivamente seda paranaense em suas produções globais. Londrina abriga a Fiação de Seda Bratac, única fábrica industrial de fio de seda no Ocidente, reconhecida com certificação orgânica têxtil. Em 2014, a empresa produziu 432,5 toneladas de fio, destinando metade para a Europa e o restante para a Ásia.
Plano estratégico para a sustentabilidade da sericicultura
O Paraná desenvolve um plano de sustentabilidade para os próximos dez anos, coordenado pela Câmara Técnica da Seda, que envolve instituições de pesquisa, universidades, órgãos de extensão, indústrias, agentes financeiros e associações de produtores. Marcelo Garrido, chefe do Deral, destaca que o projeto integra ações para aumentar a renda da agricultura familiar, elevar a produtividade e promover sustentabilidade ambiental. O plano busca também recuperar produtores que deixaram a atividade, incentivar a sucessão rural e garantir matéria-prima para a indústria local.
Tradição milenar e a importância da inovação tecnológica
A sericicultura tem origem milenar, com início na China há mais de cinco mil anos, influenciando rotas comerciais históricas. No Brasil, a atividade chegou em 1848 e ganhou impulso em 1922 com a fundação da Indústria de Seda Nacional S.A., em Campinas (SP). Atualmente, o Paraná concentra a maior parte da produção, principalmente no Vale da Seda, e também em regiões do interior paulista.
Para preservar essa tradição e manter sua liderança, o Estado aposta em inovação tecnológica para adaptar as propriedades às mudanças climáticas. A proteção das amoreiras, o controle da temperatura nos barracões e a redução dos riscos da deriva de agrotóxicos são cruciais para o futuro da cadeia. O fortalecimento da agricultura familiar e a organização da cadeia produtiva são estratégias para ampliar a competitividade da seda paranaense nos mercados de alto valor agregado.
