Mulheres predominam nos casos de violência política no Paraná
Parlamentares mulheres concentram 25 dos 31 casos de violência política e eleitoral registrados no Paraná, representando mais de 80% do total das ocorrências. Os dados fazem parte da 4ª edição da pesquisa Violência Política e Eleitoral no Brasil, conduzida pela Terra de Direitos e pela Justiça Global, e abrangem o período entre 28 de outubro de 2024 e 15 de agosto de 2026.
O Paraná ocupa a segunda posição no ranking nacional, atrás apenas de São Paulo, que contabilizou 67 casos, e à frente do Ceará, com 29, e do Rio de Janeiro, que teve 28 registros. As ocorrências paranaenses foram distribuídas em nove municípios, com mais de 60% concentradas na capital, Curitiba.
Aumento de casos e predominância de ataques machistas
O número de casos no Paraná superou o registrado na edição anterior da pesquisa. Na 3ª edição, divulgada em 2024, foram identificados 30 episódios no Estado. A comparação chama atenção, pois o levantamento anterior incluía o período das eleições municipais, enquanto os 31 casos atuais correspondem exclusivamente ao intervalo pré-eleitoral das eleições gerais de 2026.
Dos 25 casos de violência política contra mulheres no Paraná, 68% apresentam conteúdos machistas e misóginos. Um exemplo citado foi a crítica feita por um blog às vestimentas usadas por 12 vereadoras eleitas para a Câmara Municipal de Curitiba, durante a posse em 1º de janeiro de 2025. O blog acusava as parlamentares de “sexualizar” a cerimônia, com menções a “decotes provocantes”. A publicação foi repudiada pelas vereadoras e pela Câmara, sendo removida do ar.
Perfil das vítimas e impacto partidário
O levantamento destaca que, a cada quatro casos de violência política no Paraná, um tem como vítima uma mulher negra. As vítimas estão distribuídas entre 12 partidos, embora 42% dos registros envolvam parlamentares do PT.
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Gisele Barbieri, coordenadora do Setor de Incidência da Terra de Direitos e uma das organizadoras da pesquisa, afirma que os dados revelam a violência sistêmica contra mulheres na política, evidenciando as barreiras que o sistema democrático impõe ao acesso feminino aos espaços de poder e decisão.
Contexto nacional e aumento da violência política
No âmbito nacional, o levantamento identificou 354 episódios durante o período analisado, um aumento de 18,4% em relação aos 299 casos registrados na edição anterior. As organizações responsáveis destacam que este foi o período pré-eleitoral mais violento dos últimos dez anos. A pesquisa acompanha casos de violência política desde 2016, contabilizando 1.937 episódios de violações contra agentes políticos e lideranças.
Violência física e investigação de assassinato político no Paraná
Na maior parte dos casos no Paraná, a violência ocorreu na esfera municipal, envolvendo 23 vereadores, um prefeito e um vice-prefeito. Também foram identificados quatro deputados estaduais, uma deputada federal e um dirigente partidário entre as vítimas.
Um dos episódios mais graves foi o assassinato do vereador eleito João Domiciano Neto, de Salto do Itararé, morto a tiros em 9 de novembro de 2024, em Santana do Itararé. A Polícia Civil do Paraná aponta motivação política para o crime, que teria sido encomendado pelo primeiro suplente da vítima. O filho do suplente também teria participado das negociações para a contratação dos executores.
Os dois mandantes foram presos e, após conclusão do inquérito, foram indiciados por homicídio qualificado e organização criminosa. O caso foi encaminhado ao Ministério Público.
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Fonte: decaruaru.com.br
Baixa punição e andamento judicial dos casos no país
A nível nacional, apenas nove casos da pesquisa — 2,5% do total — resultaram em alguma forma de punição aos autores. Outros 46 episódios (13%) estavam em fase de apuração judicial ou policial.
Protocolo federal para atendimento a mulheres vítimas de violência política
Desde março de 2026, mulheres vítimas de violência política contam com o Protocolo de Enfrentamento à Violência Política contra as Mulheres, elaborado pelo Ministério das Mulheres em parceria com o Ministério da Justiça e Segurança Pública, o Conselho Nacional do Ministério Público, a Procuradoria-Geral Eleitoral, o Conselho Nacional de Justiça e a Defensoria Pública da União.
Esse protocolo estabelece diretrizes para prevenção, acolhimento, encaminhamento e acompanhamento dos casos, além de promover articulação entre instituições para investigação e responsabilização dos responsáveis.
A proteção não se limita a mulheres que disputam eleições ou ocupam cargos eletivos, abrangendo também ocupantes de cargos públicos, lideranças comunitárias e sociais, defensoras de direitos humanos, representantes de movimentos sociais e outras mulheres com atuação política ou pública.
Os canais para denúncias incluem o Ligue 180, a Ouvidoria das Mulheres do Conselho Nacional do Ministério Público, a Procuradoria-Geral Eleitoral, a Ouvidoria Nacional da Mulher do Conselho Nacional de Justiça, a Polícia Federal e a Defensoria Pública da União.
