A Marcha da Coluna Humana e a ocupação da Fazenda Giacomet-Marondin
Na madrugada de 17 de abril de 1996, antes mesmo do amanhecer, Sebastião Salgado atravessou a cerca da Fazenda Giacomet-Marondin, o maior latifúndio do Sul do Brasil, com impressionantes 83 mil hectares, situada no Sul (PR). Às 6 horas, a porteira foi arrombada por uma coluna de 15 mil camponeses Sem Terra, entre crianças, mulheres e homens, que pisavam aquele solo para fundar o maior complexo de áreas da Reforma Agrária da América Latina.
O fotógrafo pernambucano acompanhou a marcha de milhares de trabalhadores rurais pelo PR 158 por cerca de três horas, registrando essa histórica ocupação que garantiu o acesso à terra para 5,5 mil famílias distribuídas em 24 comunidades. A luta começou naquela madrugada, com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) iniciando uma jornada que mudaria o cenário da reforma agrária na região.
Contexto e legado da ocupação
O território da Fazenda Giacomet-Marondin, que se estendia por cinco municípios, havia sido obtido em parte por meio de grilagem pelo grupo Giacomet-Marodin. Em 2017, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) declarou nulos os títulos de propriedade da madeireira Araupel, parte dessa área, confirmando a irregularidade.
Em 15 de abril de 1996, Sebastião Salgado chegou a Curitiba com a missão de documentar a ocupação e a vida comunitária nos acampamentos do MST. Ele viajou até Laranjeiras do Sul (PR), onde conheceu um dos acampamentos com cerca de 2,6 mil famílias, acompanhado por Roberto Baggio, atual dirigente nacional do MST, que lembra a dedicação e o olhar afetuoso do fotógrafo durante os dias em que esteve na região.
A caminhada histórica e a fotografia que marcou uma geração
Na madrugada fria e chuvosa que antecedeu a marcha, a chamada Marcha da Coluna Humana partiu silenciosamente de dois acampamentos, um em Laranjeiras do Sul e outro próximo a Saudade do Iguaçu (PR), em direção ao latifúndio. Com cerca de 15 mil pessoas, a marcha foi planejada para evitar bloqueios policiais, caminhando durante a noite para garantir o sucesso da ocupação.
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Fonte: triangulodeminas.com.br
Às 6 horas, após três horas de caminhada, os Sem Terra arrebentaram o cadeado da porteira, abrindo caminho para a entrada definitiva de mais de 3 mil famílias. Salgado capturou a imagem emblemática de um camponês erguendo a foice em sinal de vitória, uma foto que simboliza a força e a esperança da luta pela terra. Essas imagens fazem parte do livro Terra (1997), uma colaboração com José Saramago e Chico Buarque, cujos direitos foram doados ao MST para a construção da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) em Guararema (SP).
O impacto nacional: o massacre de Eldorado dos Carajás
No mesmo dia, enquanto a ocupação avançava no Paraná, uma tragédia ocorria no Sul do Pará. A Polícia Militar emboscou uma mobilização de camponeses que se dirigia a Belém (PA), resultando na morte de 21 Sem Terra e dezenas de feridos. Ao receber a notícia, Salgado seguiu rapidamente para o Pará, onde documentou o cortejo e o velório das vítimas, denunciando a violência do Estado contra os trabalhadores rurais.
Esse episódio marcou o 17 de abril como o Dia Nacional da Luta pela Terra no Brasil e, internacionalmente, como o Dia da Luta Camponesa pela Vía Campesina. A Constituição Federal de 1988 prevê que a terra deve cumprir sua função social, ou seja, não pode ser improdutiva, reforçando a importância da reforma agrária.
Desafios e resistência nos anos 1990
Durante os anos 1990, o campo brasileiro foi palco de intensas ocupações e repressões. No Paraná, conforme relatórios da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e do MST, entre 1994 e 2002, ocorreram centenas de prisões, lesões e assassinatos de trabalhadores rurais, além de despejos violentos. Nesse período, os governos de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso buscaram adaptar o Brasil ao neoliberalismo, promovendo privatizações e repressão tanto nas cidades quanto no campo.
O foco era modernizar o latifúndio para preservar a concentração fundiária, expulsando trabalhadores e transformando a terra em reserva do capital agrícola. Roberto Baggio descreve esse momento como uma tentativa do Estado de ganhar tempo para incorporar a dinâmica capitalista sem alterar as estruturas tradicionais de poder e exploração.
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Fonte: feirinhadesantana.com.br
Conquistas recentes e memória viva da luta
Em 3 de julho de 2026, o MST do Paraná comemorou a formalização de 33 mil hectares de terra em três novos assentamentos: Herdeiros da Terra de Primeiro de Maio, em Rio Bonito do Iguaçu, Dom Tomás Balduíno, e Palestina Livre, ambos em Quedas do Iguaçu e Espigão Alto. Essas áreas beneficiam 2 mil famílias, muitas delas descendentes dos pioneiros da ocupação de 1996.
Joceli Borges, fotografada por Salgado quando tinha apenas cinco anos, hoje é coordenadora do grupo Nova União no assentamento Herdeiros da Terra de Primeiro de Maio. Ela relata a transformação que a luta pela terra proporcionou à sua família e a importância de continuar esse legado para as próximas gerações.
O episódio da Fazenda Giacomet-Marondin simboliza a persistência e a resistência do movimento pela reforma agrária no Brasil, marcada por confrontos violentos e conquistas significativas. Sebastião Salgado faleceu em 23 de maio de 2025, em Paris, deixando um legado de solidariedade e compromisso com as causas sociais, fortalecido pelo Instituto Terra, em Aimorés (MG).
Roberto Baggio homenageia o fotógrafo como um ser generoso e solidário, cuja obra continua a iluminar e inspirar a luta pela terra, produção de alimentos e preservação ambiental no Brasil.
Nas palavras de Salgado, a marcha que rompeu as cercas da Fazenda Giacomet-Marondin foi um encontro com a vida, uma luta coletiva pela reforma agrária, capaz de transformar 83 mil hectares em esperança e dignidade para milhares de pessoas.
