Histórias do Paraná ganham vida no cinema e emocionam gerações
Aos 75 anos, Ana Beatriz Fortes, moradora do Paraná, se emocionou ao assistir ao filme “Entrelinhas”, que retrata sua própria história de forma fiel e tocante. Durante a ditadura militar, ela foi presa e torturada por engano, acusada de envolvimento com grupos subversivos. A personagem que a representa no longa passa por interrogatórios e sofrimentos semelhantes, evidenciando um capítulo sombrio da história paranaense. Para Ana Beatriz, o filme foi uma catarse, um modo de confrontar traumas que carregava há mais de cinco décadas. Ela ressalta a importância de que as novas gerações conheçam esses episódios para que atrocidades como essas jamais se repitam.
Produção audiovisual paranaense cresce e fortalece a economia local
“Entrelinhas” é um exemplo do ecossistema audiovisual do Paraná, que tem se consolidado como um importante polo de produção cultural e econômica. Entre 2009 e 2025, 67 filmes produzidos no estado foram lançados comercialmente, atraindo mais de 219 mil espectadores e gerando uma receita de R$ 2,22 milhões em bilheteria, segundo levantamento do Sebrae/PR em parceria com a Secretaria Estadual de Cultura do Paraná (SEEC). O destaque fica para os filmes de ficção, com 42 títulos lançados, seguidos por 23 documentários e duas animações. Essas obras trazem narrativas que, embora profundamente ligadas ao Paraná, dialogam com temas universais, ampliando seu alcance para além das fronteiras estaduais.
Produções regionais unem tradição e modernidade em narrativas envolventes
O filme “Meu Avô Stanislau”, lançado em 2026, ilustra bem essa conexão entre o local e o universal. A trama acompanha um jovem que visita o interior paranaense e convive com seu avô, líder de uma comunidade ucraniana. A obra mostra paisagens e costumes típicos do Paraná, enquanto explora o choque entre o mundo digital e as tradições familiares. Marcelo Dias Lopes, diretor de Programação da RPC, explica que a produção buscou traduzir a cultura paranaense de forma autêntica para todo o país, abordando a relação entre avô e neto com afeto e valorizando os elementos regionais presentes na história.
Capacidade produtiva do Paraná abre portas para projeção nacional e internacional
Segundo Guto Pasko, diretor dos filmes “Entrelinhas” e “Meu Avô Stanislau”, a indústria audiovisual do Paraná está estruturada e pronta para expandir suas oportunidades. “Cada produção leva a imagem, a cultura e a história do Paraná para o Brasil e o exterior. O paranaense quer se ver nas telas, assim como o brasileiro. Precisamos de oportunidades para isso”, destaca. Essa força produtiva atrai ainda instituições e clientes externos, impulsionada por uma infraestrutura técnica qualificada, bons cursos na área e uma localização estratégica próxima a centros como São Paulo e Rio de Janeiro.
Infraestrutura e diversidade cultural tornam Paraná polo atraente para o audiovisual
Luiz Gustavo Vilela, secretário executivo da PrFilm Commission, chama atenção para a variedade paisagística do Paraná, que combina áreas urbanas com diferentes estilos arquitetônicos, como modernismo e brutalismo, permitindo que o estado sirva como cenário para diferentes tipos de produção. Essa diversidade, somada à qualificação técnica, torna o Paraná um terreno fértil para investimentos e para contar suas próprias histórias por meio do audiovisual. Cinco cidades se destacam como principais polos regionais: Curitiba, Londrina, Maringá, Ponta Grossa e Foz do Iguaçu.
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Produção audiovisual gera empregos e movimenta diversos setores econômicos
Com quase 30% das empresas do setor audiovisual no Paraná empregando profissionais em regime CLT, o mercado local privilegia a contratação de mão de obra paranaense, ainda que a maior parte seja temporária durante as produções. O filme “Nova Éden”, dirigido por Aly Muritiba e rodado principalmente no estado, envolveu cerca de 150 pessoas diretamente e mais de 300 contando fornecedores. A produção movimentou pelo menos R$ 15 milhões na economia local, gerando emprego e renda que extrapolam o setor cultural ao envolver serviços como transporte, alimentação e hospedagem.
Setor audiovisual global cresce e impacta fortemente a economia
Um relatório da consultoria Olsberg SPI apontou que, em 2019, os gastos globais com audiovisual foram de US$ 177 bilhões, mas considerando os efeitos indiretos e induzidos, o impacto econômico total alcançou US$ 414 bilhões. Isso significa que para cada dólar investido diretamente, mais de dois dólares adicionais circulam em outras áreas da economia. Em 2024, a estimativa é que os investimentos globais tenham chegado a US$ 247 bilhões, confirmando a expansão contínua do setor.
Profissionais de outras áreas migrando para o audiovisual no Paraná
O crescimento do setor também traz novos profissionais, como Ales de Lara, formada em Biologia, que mudou de carreira para se dedicar integralmente ao cinema. Direção de curtas de terror, roteiro, maquiagem de caracterização e efeitos especiais práticos são algumas das áreas em que atua. Sua formação contribui para a criação de maquiagens realistas, pois exige conhecimento detalhado de anatomia e processos biológicos, como a cicatrização. Para aprimorar sua expertise, fez pós-graduação em Cinema e outros cursos de especialização.
Formação e escolaridade no setor audiovisual paranaense
O Paraná conta com 35 cursos de graduação voltados ao audiovisual, entre bacharelados e tecnológicos, mas apenas três são oferecidos por instituições públicas e dois são gratuitos. Segundo o Sebrae, 57,4% dos profissionais do setor têm ensino médio completo, 29,5% possuem ensino superior e 10,4% apenas o ensino fundamental. Essa diversidade reflete o perfil do mercado local e os desafios para qualificação e profissionalização contínua.
História e tradição do audiovisual no Paraná
A relação do Paraná com o cinema é antiga e significativa. Em 1897, no Theatro Hauer, a companhia Faure Nicolay apresentou um espetáculo de imagens em movimento, poucos anos após a estreia dos irmãos Lumière em Paris. O Museu da Imagem e do Som (MIS) registra que até a década de 1930, curitibanos como Annibal Requião, João Baptista Groff e Arthur Rogge já realizavam obras genuinamente paranaenses. A Cinemateca de Curitiba, fundada em 1975, marcou um avanço importante para a área.
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Fonte: amapainforma.com.br
Olhar de Cinema e o fortalecimento do audiovisual local
Desde 2012, o Paraná sedia o Olhar de Cinema, um dos maiores festivais do Brasil, que apresenta mais de 80 filmes, incluindo a Mostra Mirada Paranaense, dedicada à produção local. Antonio Gonçalves Junior, idealizador e diretor do evento, destaca a importância de manter o festival conectado à comunidade para impulsionar os filmes locais e revelar talentos. O festival também abriga o Mercado do Cinema Independente (MECI), espaço de negócios, formação e networking para profissionais do audiovisual nacional e internacional.
Desafios para a exibição e consumo do cinema nacional no Paraná
Embora o audiovisual paranaense cresça, a oferta de salas de cinema no estado é limitada: apenas 34 cidades (8,5%) possuem salas comerciais. Isso obriga moradores de outros municípios a se deslocarem para assistir a filmes. Em Curitiba, 92% do público assiste a obras estrangeiras, enquanto apenas 8% veem produções nacionais. Luiz Gustavo Vilela aponta que o público precisa se interessar genuinamente pelo cinema nacional, não apenas prestigiar, para que a indústria local se fortaleça.
Iniciativas para ampliar o acesso ao cinema no interior do Paraná
Programas como o Cinema na Praça levaram filmes a 144 municípios em 2024, promovendo acesso gratuito à cultura em regiões sem salas comerciais. A descentralização e a criação de circuitos de salas públicas são alternativas para ampliar o alcance. Em Curitiba, o Cine Passeio e o Cine Guarani, ambos administrados pela prefeitura, oferecem sessões com curadoria especializada, atraindo cerca de 600 pessoas diariamente e contribuindo para a revitalização do centro e bairros da cidade.
Construindo vínculos entre público e cinema nacional
Para Luiz Gustavo Vilela, o desafio é conectar o público às produções nacionais por meio do reconhecimento e do sentimento de pertencimento. “O paranaense precisa aprender a se ver, a ouvir seu próprio sotaque”, afirma. Essa aproximação é essencial para fortalecer a indústria local e valorizar as histórias contadas nas telas, garantindo que o cinema nacional ocupe seu espaço no coração e na rotina do público.
